Deixando o sol entrar

“O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás, o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra. Não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação”?.

Esse trecho do poema “Fevereiro”, de 2014, da portuguesa Matilde Campilho, nunca pareceu fazer tanto sentido. Ele nos faz refletir sobre o momento histórico que nos atravessa. Sim, Matilde, o mundo está tremendamente esquisito! No entanto, apostar que as rachaduras abrem espaço para a entrada de luz, acende em nós muita esperança.

E é na própria velocidade da luz que vemos muitas reflexões possíveis para esse tempo de “espera forçada”. Uma delas é aprendermos, na solidão, o valor do coletivo. E, veja bem, cada um irá sentir, despertar, questionar, refletir, silenciar de maneiras diferentes, em tempos diferentes, com perspectivas também diferentes. Alguns sentirão mais fortemente a falta do contato humano, a importância de um abraço; outros desenvolverão um potencial infinito de compaixão enxergando oportunidades concretas para ajudar a quem possa estar precisando de apoio. Ainda haverá aqueles que irão preferir o isolamento na quietude, o olhar para dentro que, ao contrário da dor da solidão, já foi cunhado como “solitude”.

Toda reação gerada por este momento, todo sentimento despertado são legítimos. Não tem uma fórmula para experienciar este contexto social. Contudo, acredito que a maneira de olhar e entender o que está acontecendo agora poderá definir o que vamos viver (e construir) no futuro próximo.

Para aqueles que também analisam este como um momento disruptivo para a humanidade, o economista equatoriano Alberto Acosta em sua obra “O Bem Viver – uma oportunidade para imaginar outros mundos”, de 2016, merece ser lembrado. Ele fala sobre a importância de mudanças radicais na sociedade e como deveríamos nos organizar e rever nossas práticas políticas e, sobretudo, econômicas. Ele reconhece um sistema com desigualdades gritantes sobrevivendo há séculos, com o apoio de milhões e a subordinação de bilhões. O conceito do Bem Viver revela os erros e as limitações das diversas teorias do chamado “desenvolvimento”.

Joga luz também sobre países que se intitulam como desenvolvidos mostrando, cada vez mais, os sinais de seu mau desenvolvimento. É o caso de nos perguntarmos: seria o homem trabalhando pelo desenvolvimento ou o desenvolvimento gerando efeitos à favor do homem?

A discussão é profunda e aqui trago alguns extratos que podem contribuir como ponto de partida para a reflexão.

“Compreende-se, paulatinamente, a inviabilidade do estilo de vida dominante. O crescimento material sem fim poderia culminar em suicídio coletivo”. Para Acosta, o patamar em que nos encontramos hoje afeta nossa segurança, liberdade e identidade. E a filosofia do Bem Viver abre portas para a construção de um projeto de desenvolvimento sustentável mais efetivo, ainda que ancorado nas mesmas bases sustentadas no discurso que há alguns anos o define como “aquele que permite satisfazer as necessidades das gerações presentes sem comprometer as possibilidades das gerações futuras, para que elas, assim, tenham condições de atender a suas próprias necessidades”.

E como isso pode ser feito? Aprendendo a conviver harmonicamente com a natureza, nos reconhecendo como um segmento dela a partir da compreensão de que somos uma coisa só. O Bem Viver, então, recupera essa sabedoria ancestral e afirma que “a natureza não está aqui para nos servir, até porque nós, humanos, também somos natureza e, sendo natureza, quando nos desligamos dela e lhe fazemos mal, estamos fazendo mal a nós mesmos”. Quem sabe esta “oportunidade para imaginar outros mundos” nos está sendo dada neste exato momento?

Ao final, um respiro de esperança vindo do mineiro Carlos Drummond de Andrade em seu poema “A Grande Manchete”, da década de 1970.

“Acabaram as alucinações, os crimes, os romances, as guerras do petróleo (…) O mundo fica livre do pesadelo institucionalizado. Ruas voltam a existir para o homem e as alegrias de estar-junto. A poluição perdeu seu aliado fidelíssimo. A pressa acabou. Milhões de árvores meninas irrompem do asfalto e da consciência em carnaval de sol. Dão sombras grátis ao papo dos amigos, à doçura do ócio no intervalo do batente, do amor antes aprisionado sob o capô ou esmigalhado pelas rodas, a vida de mil formas naturais. Pessoas, animais, confraternizam: Milagre!”