Um abraço à utopia

Como vai ser o mundo depois da Covid 19? Dia desses fui desafiada por amigos a responder a esta pergunta num vídeo de um minuto. Falei, sobretudo, de duas coisas: o medo do desconhecido, do que vem de longe que, não sendo criada uma vacina para a Covid-19, provavelmente, se fará mais presente na nossa jornada; e a resiliência que estamos conquistando com novas respostas, novo repertório e uma habilidade para nos expressarmos em nossa essência diante de tamanho desafio.

Muitos vídeos, leituras e reflexões depois, me deparo com nova pergunta: Como curar este sistema tão fragilizado e adoecido? Haveria uma saída para que deixemos de ser, nós mesmos, o vírus que tem colocado em risco o Planeta, como nos provoca o ativista Ailton Krenak?

Não sei dizer o que vem pela frente. Oscilo entre momentos de otimismo, desconfiança e negatividade. Acho que você também, não é mesmo? Mas alguma coisa nisso tudo parece fazer muito sentido pra mim: o maior legado dessa nossa experiência será o repensar e o reposicionar-se frente a si mesmo. Quem sou eu no mundo? O que me cabe diante do novo contexto? Em que medida prossigo com meus velhos hábitos e em que medida me reinvento?

Claro, nem todos estão vivendo estas questões na mesma profundidade e intensidade. Uma maioria anda dedicada à sobrevivência face à sua extrema vulnerabilidade, agora ainda mais agravada. Outros, incansáveis, estão na linha de frente, entregando os serviços essenciais – expressão que entrou para nosso vocabulário definitivamente, como se já não tivéssemos aprendido sobre isso durante a greve dos caminhoneiros. Alguns permanecem à superfície das reflexões – comodismo, limitação, medo de mergulhar? Mas, como as guerras e outras pandemias já provaram, situações extremas nos puxam para novos posicionamentos e aprimoramentos, ainda que tenhamos evitado enxergar o que se passava à nossa volta.

Tenho convicção de que crianças e jovens que estão experimentando este momento, serão os grandes mobilizadores para uma nova abordagem. Não se trata de deixar pro futuro, mas de compreender que, nós, as gerações que hoje ocupam as posições de liderança, teremos maiores dificuldades para fazer o realmente novo. Nem de longe estou me referindo ao novo tecnológico porque não é aí que reside a mudança necessária. Estou me referindo ao que, na Bridge, temos chamado de “cuidado consciente”. Não há outra dinâmica para fazermos diferente – nós todos, indivíduos, famílias, organizações, empresas, mercado, sociedade – a não ser nos colocarmos a partir de um lugar diferente. Será preciso desaprender para dar lugar à renovação.

A expressão “cuidado consciente” traz à tona a já conhecida filosofia africana “ubuntu”: eu sou porque nós somos. Nos convida também a pensar no conceito de “Bem Viver” cunhado pelo equatoriano Alberto Acosta que amplia a discussão sobre viver em comunidade, contemplando uma convivência harmônica e responsável com a natureza: “A natureza não está aqui para nos servir, até porque nós, humanos, também somos natureza e, sendo natureza, quando nos desligamos dela e lhe fazemos mal, estamos fazendo mal a nós mesmos”. O Bem Viver é “um conceito de comunidade onde ninguém pode ganhar se seu vizinho não ganha”, esclarece o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos.

Você compreende o “cuidado consciente” quando se permite constatar a “interdependência”. Como um bumerangue, meus atos causam efeitos positivos ou negativos à sociedade. Tudo começa em mim e termina em mim. Se o outro não está feliz, eu tampouco. Ninguém é ilha. E, nas palavras da amiga e mentora, Petronella Boonen, “não existe ‘fora’”.   

Me explico: abrir-se para o outro; acolher o diverso, o diferente, valorizando a riqueza que a diversidade pode proporcionar às nossas relações. Estar presente, sentindo verdadeiramente o ambiente e as pessoas com as quais me conecto, reconhecendo as necessidades humanas que regem nossas condutas. Reduzir o consumo a partir da construção de um estilo de vida saudável – afinal, o cuidado começa em você. Investir no autoconhecimento, como condição para que as trocas dialógicas aconteçam com mais respeito, menos ruídos e armadilhas. Responsabilizar-se pelos resultados de nossa atitude e nos comprometermos verdadeiramente com a mudança quando reconhecermos que um dano foi provocado por nós. Tudo isso está abarcado pelo que chamamos “cuidado consciente”. Começa no indivíduo – você que está lendo esse artigo e torna-se um multiplicador da prática, expandindo-a para as organizações das quais participa. E, como um vírus positivo, mudamos o mundo.

Alguns dirão que falamos de utopia. Há dezenas de anos temos conversado e conversado e conversado sobre Sustentabilidade, sempre desafiados por comprovar o impacto numérico desta conduta em benefício das organizações, da sociedade, do Planeta. Fizemos o suficiente? Empreendemos esforços adicionais para cuidar do que era preciso? Ou apenas fizemos o que estava ao nosso alcance? Lideramos mudanças na profundidade necessária?

Se o cuidado consciente que propomos é utopia, nela me apego pois tem o enorme valor de gerar em nós o inconformismo, de nos colocar em movimento na construção de um mundo melhor no qual o desenvolvimento exista em benefício da vida – e não o contrário.

Te abraço, utopia. Porque hoje é dia de começar.