Você viu Bacurau?

A pergunta que dá título a este artigo pautou várias conversas no segundo semestre do ano passado. Afinal, quem viu Bacurau seguramente saiu tocado (e incomodado) por alguma cena, cabeça a mil, reflexões pulsantes. Essa indagação me volta nesses tempos de Pandemia de modo até divertido. É que, sendo profissional da área do Diálogo Social, tenho vivido as angústias de todos os meus colegas: como vamos nos comunicar com as comunidades e outros públicos daqui pra frente? Mais uma das especulações que nos impomos pra pensar o mundo pós-Covid.

Bom, primeiro devo dizer que não sei ao certo se haverá um mundo pós-Covid. O mundo está mudando o tempo todo, e nós vamos mudando com ele sem nos darmos conta. Talvez o pós-Covid já esteja sendo. Mas, voltemos a Bacurau. O filme nos provoca na perspectiva invasora de recursos tecnológicos alterando o modo de vida de uma comunidade remota, instalada no sertão nordestino. Trata também de enfatizar o valor do “um por todos, todos por um”. Na maior parte do tempo, as decisões são tomadas em conjunto, eles se educam e se protegem mutuamente e vivem suas neuroses de modo compartilhado, todos se responsabilizando pelos problemas de todos.

A relação do prefeito com aquele povo é muito ilustrativa para o propósito da discussão do diálogo institucional pós-Covid. Habituado à velha (?) política brasileira, o prefeito não consegue interagir com a comunidade. Se ele chega pra visita, todos se escondem em suas casas, de modo articulado, como se vida não houvesse ali. Sem alternativa, ele despeja livros, alimentos e remédios marcando presença (presença questionável, é fato). Eventualmente, ele faz um esforço de comunicação diferenciado: lembra daquele caminhão equipado com grandes telas de vídeo, reproduzindo a mensagem do prefeito para o povo do lugar? Divertidamente, é a esta cena que recorro quando penso numa comunicação surreal em comunidades no curto e médio prazo enquanto uma vacina contra o coronavírus não aparece para nos dar algum alívio.

O caminhão midiático do prefeito de Bacurau é uma inspiração para o contraditório: ainda que não possamos, por algum tempo, viabilizar reuniões com comunidades, os temas difíceis continuarão na pauta. Aliás, o isolamento físico em nada arrefeceu a necessidade de conversar sobre impactos sociais, ambientais e econômicos; ao contrário, a Covid-19 acentua o discurso dos movimentos contrários às práticas atuais de produção e aumenta a necessidade de repensarmos nosso modo de vida.

Não mudou também a necessidade humana de apoiar-se na confiança como veículo para qualquer possibilidade de encontro. O meio de comunicação, portanto, pode ser virtual ou presencial; oneroso ou econômico; moderno ou à moda antiga. O que não pode faltar no diálogo social pós-Covid é aquela mesma confiança de que já nos falava Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas. Aquela confiança que é construída pela nossa capacidade de falar daquilo que nos vulnerabiliza, que abre para o outro as nossas fragilidades. Um vulnerabilizar-se que, ao mesmo tempo em que humaniza os negócios, viabiliza o encontro com o outro, abrindo passagem para o esvaziamento de incertezas, medos e raivas até que seja possível mudar de lugar na dinâmica da comunicação e passar a ouvir o que o outro tenha para dizer.

Não sabendo, ainda, que soluções efetivas teremos para o diálogo social pós-Covid 19, suspeito que será, mais do que nunca, tempo para fortalecimento da Comunicação Interna e Institucional, pautadas pela clareza, transparência e linguagem amigável, de modo a formar novos “embaixadores” que apoiem na disseminação do que precisa ser esclarecido, por necessidade das empresas e por direito das comunidades. Será tempo, também, para intensificar a tradicional conversa um a um, não mais regada a cafezinho mas agora protegida pela máscara e lubrificada pelo álcool em gel.

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